Terra Nua | Naked Land

2017

Objeto

(madeira, vidro, papel e porcelana)

29 cm x 34 cm x 10 cm

Não sabemos quantos dias demorou, se estava frio, se tinha fome, se foi caminhando ou na boleia de uma carroça. Só sabemos que em alto mar uma menina de 16 anos foi descoberta escondida no porão do navio, que provavelmente saiu de Figueira da Foz ou de Lisboa a caminho do Brasil.

Estava clandestina, sua bagagem se resumia em um único objeto, um realejo.  Para pagar sua viagem, passou a trabalhar como camareira no navio até o destino. Provavelmente a viagem demorou meses. Quantas coisas aconteceram? Quantos medos e dores sentiu aquela jovem que num ato de coragem deixou para trás sua família, sua tradição, trocando o conhecido pelo longínquo desconhecido?

Analfabeta, sem dinheiro e sem bagagem.

Tudo se supõe, apenas palpável são datas encontradas em documentos de casamento, óbito e mais recentemente de nascimento encontrado nos livros de registro de batismo na paróquia de Reguengo do Fetal, em Portugal.

O que teria acontecido? Porque aquela jovem abandonou tudo, se escondendo no navio que partiria para o outro lado do oceano?

Que força é esta que move determinadas pessoas a se atirarem no desconhecido?

Não sei. Talvez passe a vida toda sem saber.

Já no Brasil, onze anos depois, aos 27 anos de idade, esta jovem se casa com um imigrante italiano, Jerônimo. Desta união nasceram seis filhos. Trabalharam duro, dia e noite. Sua família, somente o marido e filhos.

Não se sabe se ela tinha irmãos, se tinha pai e mãe. Chegou sozinha. Não se sabe se alguma notícia recebeu. Não se sabe se a saudade lhe doía ou se a fortalecia. O que se sabe é que era uma alma dura.

Nas lembranças não tem sorrisos, não tem carinho.

E na altura da metade da vida, conduzia com rigor e bravura seu imponente hotel de localização privilegiada, em frente à estação ferroviária na próspera Jaboticabal.

Anos se passaram.

Ficou viúva.

Se esqueceu de tudo.

Morava com a nora e o filho no interior de São Paulo.

Numa tarde ensolarada, saiu de casa sozinha, passou no mercado municipal e comprou algumas sardinhas. Se sentou na charrete de aluguel da praça e pediu ao condutor que a levasse a Reguengo do Fetal, pois queria se encontrar com o Manoel...

 

We do not know how long it took her, if it was cold, if she was hungry, if she walked or if she went on the back of a horse cart. All we know is that, on a ship’s hold on high seas, was found a 16 year old girl, who left probably Figueira da Foz or Lisboa and was now going to Brazil.

She was there clandestinely, and her luggage was a single object: a realejo. To pay for her travel, she started working as a maid on the ship until the destination. The journey probably took months. How many things might have happened? How many fears and pains have felt that young lady who, in an act of courage, left her family and her tradition behind, exchanging the known for a distant unknown?            

Illiterate, no money and no luggage.

Everything is conjectured, the only real evidences are dates on wedding, death and birth documents, found in baptism registry books at the church of Reguengo do Fetal, Portugal.

What would have happened? Why did that young lady abandon everything and hid on a ship that would cross the ocean?

What is this power that moves certain people to throw themselves into the unknown?

I don’t know. Maybe I will never know.

In Brazil, eleven years later, at 27 years old, this young lady marries an Italian immigrant, Jerônimo. They had six children. They worked hard, day and night. Her family was only her husband and their children. It is unknown whether she had siblings, or who were her parents. She arrived alone. We don’t know if she ever heard any news. Neither if the nostalgia hurt or strengthened her. What is known is that she was a tough soul.

On her memories there are no smiles, no kindness.

When half of her life had passed by, she was managing with rigor and bravery her imposing hotel on a privileged location, in front of the train station on the prosperous city of Jaboticabal.

Years went by.

She became a widow.

She forgot everything.

She was living with her daughter-in-law and her son in the countryside of São Paulo.

On a sunny afternoon, she left home alone, stopped by the city market and bought a few sardines. She boarded a horse wagon on the city square and asked the driver to take her to Reguengo do Fetal, because she wanted to meet with Manoel...

 

Angella Conte

2016